O cidadão português básico, de visão tacanha e egocentrista olha para a cidadania como o adepto de futebol olha para uma grande penalidade: se for a favor foi evidente, se for contra “é uma roubalheira".
Façamos a seguir um brevíssimo exercício de imaginação ao entrevistarmos
um desses lusos habitantes deste rectângulo:
Pergunta: Costumas dar passagem a um peão idoso que está
numa passadeira?
Resposta: Eu não, era só o que mais faltava, só se fosse o
meu pai!
P: Dás passagem a uma senhora com crianças também numa passadeira?
N: Também não. Esperem que eu também espero.
P: Já fugiste alguma vez aos impostos?
R: Eu nunca! Nunca!
P: E aquelas facturas que pedes sem IVA e pagas a dinheiro…
R: Isso nem conta, é tão pouco dinheiro…
P: Como vês a corrupção.
R: Uma vergonha. Um país com tanta corrupção jamais evoluirá!
P: E aquele pedido que fizeste a um técnico de uma entidade
qualquer para despachar o teu processo mais rapidamente?
R: - Isso é corrupção? Isso é apenas um favor que lhe fiquei
a dever! Mas pago!
Obviamente que o diálogo anterior foi completamente inventado, porém o
português é quase sempre assim: tem sempre dupla visão para o mesmo problema,
dependendo se será beneficiário ou se será prejudicado.
Posto isto, hoje assisti a algo que não sendo incomum,
deixou-me de coração nas mãos. O relato será breve e não tentando explicar
nada, consigo talvez dizer tudo.
Tive de ir às compras de carro e no caminho passo por
inúmeras passadeiras de peões. Tenho sempre muito cuidado até porque há treze
anos colhi uma jovem num desses locais, felizmente sem ferimentos, e por isso
acautelo-me.
Estava eu de regresso a casa quando a uns trinta a trinta e
cinco metros dei por uma jovem a passar uma passadeira devidamente sinalizada
com semáforo vermelho para os peões. O pior é que a menina, senhora, sei lá,
carregava não uma, mas três crianças. Três, disse bem! Uma no carrinho, outra nos
braços e a terceira, que me pareceu ser a mais pequena, numa bolsa marsupial,
porém a nascer nas costas.
Eu fiquei espantado! Como alguém ousou atravessar a estrada
sem cuidar primeiro dos seus. Esta cidadã ou faz parte do grupo acima referido
ou então ainda tem muito que aprender no que respeita à cidadania. Imaginem que
eu ou outro condutor qualquer tocava neste peão? O sarilho que não adviria daí…
Fico com a ideia de que a cidadania parece ser uma palavra
nova no léxico luso. Talvez daqui a falta de percepção do seu verdadeiro significado.
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