domingo, 30 de agosto de 2026

Um caso de fé

 Todas as manhãs ao pequena almoço rezo uma oração.

Oro para que haja pão em todas as mesas, para que Deus me dê coragem para aceitar os desafios que me propõe, rezo pela saúde de todos os de casa e dos meus amigos e familiares e finalmente peço humildemente que Deus vele pelas crianças da família.

Uma oração simples, humilde, sem grande palavreado e assente na minha fé. Aquela que sinto e que alimenta diariamente mais o meu espírito que o meu corpo.

Talvez por isto e demais pensamentos é que vivo uma certa tristeza interior por não ver nenhum dos meus netos baptizado. Também é certo que não me cabe levá-los a escolher qualquer educação religiosa, mas aos pais se assim o entenderam. O que não é o caso!

Tudo o que escrevi serve de entrada a uma estória que se passou há muitos anos com um homem que conheci e que viveu na aldeia. Logo a seguir ao 25 de Abril, Armando teve de fugir de África onde nasceu e viveu, tendo lá constituído a sua família.

Veio então para a aldeia, que nunca fora a sua, acompanhado do sogro, mulher e uma filha da minha idade e de quem fui muito amigo (há muito que não sei nada dela!!!). A esposa era irmã de peito do meu pai e penso que ainda esteja viva, se bem que resida num lar. Contra vontade!

O Armando desde cedo se mostrou ser um homem de esquerda. E fazia-o saber a todos sem qualquer receio de eventuais retaliações, numa aldeia trabalhadora e pouco dada a revolucionários.

A sua maior bravata era com a igreja que considerava obtusa e antiquada, já para não falar das pessoas que sendo crentes, considerava burras e imbecis.

Mas a vida havia de lhe trazer estranhos desafios pois um dia descobriu que estava muito doente, carregando no ventre um tumor maligno. Tratamentos e mais tratamentos originavam algumas melhoras, mas nunca a cura.

Certo dia fui à missa na aldeia e deparei, para minha enorme estupefacção, com Armando sentado na primeira fila. Ele assistiu à eucaristia como de um devoto se tratasse, seguindo todos os passos.

Nada disse naquela altura, para certo dia à porta da taberna onde ele geralmente se sentava naquele pouco tempo que lhe restava, lhe perguntar com a mesma frontalidade com que ele assumia a sua política se se convertera.

Não esperava aquele gesto, pois olhou para mim e mandou-me sentar a seu lado. Para finalmente me esclarecer:

- O que me levou à igreja não foi a crença em Deus, ser Omnipresente, mas a capacidade que Jesus Cristo mostrou em sofrer pelos outros. E eu que hoje sofro agruras dentro de mim entrei na capela pela primeira vez, não para pedir cura para a minha doença, mas simplesmente que essa tal de fé que vocês dizem sentir me desse capacidade para aguentar o meu sofrimento.

Levou a mão ao peito para respirara talvez melhor e rematou:

- Náo sei se é da fé, todavia sinto-me melhor não com as dores, mas com a aceitação deste meu tenebroso fim.

Recebi as suas palavras com a certeza de que estava perante um homem de fé. Alguém que durante tanto tempo renegara esse sentimento para no fim da sua vida perceber como a fé poderia ser melhor que um tratamento médico.

Morreria semanas mais tarde E foi sepultado com todos os preceitos católicos.

Só mais uma coisa: Armando nunca foi baptizado!

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