Confesso que gosto de uma bela história de amor. Daquelas com muitas peripécias, com muitos avanços e mais recuos, com drama e ansiedade, para no fim tudo acabar em bem e rematar com a célebre frase “ … e foram felizes para sempre”!
No entanto a vida é amiúde mais complicada que as estórias
ficcionais de cinema ou televisão, por mais voltas que o enredo tenha.
Há dias soube que um antigo colega, bem mais velho que eu,
está entregue aos cuidados de um lar por culpa de uma demência que o vem atormentando e definhando.
O curioso é que ele é dono de uma bela estória de amor, daquelas que quase todos nós gostamos.
Então o enredo conta que João Noronha (nome fictício) nasceu
no seio de família abastada e viveu uma vida de jovem endinheirado. O pai tinha
uma enorme casa de antiguidades daquelas verdadeiras, genuínas e muito caras.
Entre os amigos do bairro chique na época, João acaba por se
apaixonar por Alice (nome fictício) uma bonita jovem, mas a quem nunca se declara.
O tempo corre célere e Alice acaba mais tarde por casar com outro homem, que não o João. Este continuou a escudar-se no silêncio e deixou nas mãos do
destino ou sorte as teias do seu futuro.
João reencontra Alice, no funeral do pai
de um dos amigos comuns. Ambos chegaram sem qualquer companhia. Ele porque
nunca casara, ela porque, entretanto, enviuvara.
Sorrisos e consternação pelo triste acontecimento ao amigo
de anos, ainda assim mantiveram-se quase sempre lado a lado. Ele impecavelmente
vestido no seu metro e oitenta, ela lindíssima como sempre João a conhecera.
Quando tudo terminou saíram juntos do cemitério, trocaram
números de telefone e combinaram almoçar, quiçá, um dia.
Conta quem sabe que partiu dela a iniciativa de marcar o
restaurante. Para meses depois casarem num belíssima capela de uma quinta de um
familiar. Deste casamento nasceram três meninas que sempre foram muito acarinhadas
por mãe e pai.
Alice descobriu o verdadeiro amor naquele homem que nunca
desistira de a amar. Mesmo depois das cãs, das dores normais da idade, da
demência aterradora.
Todos os dia Alice visita o marido no lar. Quase sempre é uma
das filhas ou um dos netos que a leva. Entram todos na enorme sala. As colaboradoras
já conhecem a família e procuram captar a atenção do meu velho colega idoso. A
nenhum responde, fala ou imita um gesto.
Há porém neste triste quadro uma excepção, pois sempre que Alice
se aproxima e deposita aquele beijo terno na testa, ela recebe de João um
sorriso e a mão ergue-se do cadeirão e procura a mão da esposa.
Um dia destes verei provavelmente o seu obituário, mas
saberei que mesmo sob a força terrível da demência, João continuou a amar a
mulher…
Desde menino.
