Sempre que tomamos conhecimento de alguém que cometeu suicídio, ficamos sempre com a ideia de que havia algo nessa pessoa que não estaria bem. A reboque vem sempre a teoria de alguma depressão que estranhamente ninguém próximo terá notado.
A vida já me mostrou e ensinou muita coisa. Muito mais do
que eu julgaria um dia aprender e assim começo a duvidar de muitas ideias no
que respeita ao suicídio. A eutanásia é um exemplo… de que alguém não está louco
ou sob uma depressão profunda, mas consciente de que partir será o melhor para o
próprio e os que o rodeiam.
Chamo a atenção que não quer dizer que concorde com a
eutanásia ou suicídios assistidos. Até porque, em ambos os casos, será sempre
necessário perceber até que ponto tudo se encontra bem estudado e bem aceite.
Hoje lembrei-me de um amigo que comigo passou algum
tempo. Especialmente nas férias escolares. Nasceu numa aldeia ribatejana, mas
gostou sempre de andar na escola, ao invés de mim. Com menos um par de anos que eu, era o irmão
mais novo de uma tia por afinidade.
O Sérgio era um jovem espertalhão e muito sabido. Reconheço
bem mais que eu, na altura.
A vida afastou-nos normalmente até porque ele pretendeu estudar e eu preferi
outros caminhos. Curioso é que fomos bater ao mesmo negócio: banca. Licenciar-se-ia
em Economia e em pouco tempo era gerente de uma agência bancária. Casaria tempos
mais tarde numa cerimónia atípica porque os convidados foram todos comer e beber
e só no fim ele se casou. Provavelmente muitos daqueles que estiveram presentes
nem se lembrarão disso, digo eu!
A verdade é que pouco tempo depois o Sérgio veio a descobrir que era
portador de um cancro. Daqueles ferozes. Sei que percorreu “seca e meca” no
sentido de perceber se conseguiam confirmar tal maldita doença. Infelizmente
todos confirmaram a enfermidade.
Todavia haveria grandes possibilidades de tratamento e de
cura. No entanto, teria de passar por um longo calvário de quimioterapia acutilante
e com muitas consequências.
Mas Sérgio não estava para isso. Simplesmente não queria
sofrer, fazer os outros sofrer para, provavelmente, um dia voltar ao mesmo.
Assim Sérgio certo dia matou-se!
Deixou à esposa uma longa carta onde dizia que não tinha
coragem para sofrer as agruras de um tratamento. E com o desaparecimento dele, ela só sofreria durante uns meses, "porque o tempo tudo dilui” como
ele próprio escreveu!
Foi um choque para a família. Tremendo, impensável!
Não sendo este suicídio a consequência de uma profunda depressão fica a
questão em aberto: corajoso ou cobarde?
Por mim ainda hoje, e já passaram tantos anos, não sei
responder!
E espero nunca saber!