Durante muuuuuuuitos anos a minha vida foi uma correria. Principalmente quando estava no activo (permitam-me abrir um breve parêntesis para assumir sem receio de consequências que faz-me imensa confusão o léxico da SS para o trabalhador – activo – e alguém que deixou de trabalhar - reformado, já que há gente activa que parece reformada e reformados que trabalham mais que os activos!!!). Enfim…
Foram anos a fio a correr para chegar a horas ao trabalho, a
correr para sair a horas do trabalho para ir buscar miúdos a casa para os levar
a actividades extra-curriculares (vulgo, natação, ginástica, inglês, etc…). E
com os meus descendentes vinham a reboque os meus sobrinhos e até colegas
destes. Mas tudo fiz em prol do bem estar das crianças e jovens.
Havia também os meus sogros, os meus pais (estes ainda
existem!) que requeriam por vezes cuidados e atenções específicas. Quando o meu
sogro partiu deste Mundo fiquei com algumas das suas responsabilidades
nomeadamente as que envolviam a actividade agrícola.
Durante todo o tempo em que trabalhei tive algumas esporádicas
paragens. A maioria por razões médicas. E foi numa destas ocasiões que dei por
mim a perceber que todas as minhas corridas me tinham levado… a lado nenhum!
Entretanto os miúdos haviam deixado de o ser e tornaram-se
mais independentes. Foi nesta altura da minha vida que principiei a travar… a
velocidade do meu tempo.
Todos temos um momento para sair deste mundo físico, quer
queiramos quer não. Mas independemente desta cruel ou não realidade o que teremos
de conseguir estará sempre ligado à capacidade como vivemos os dias que correm.
Talvez por isso e quando vou até à aldeia, na Beira Baixa,
procure amiúde o silêncio, seja pela noite dentro ou madrugada fora. Seja no
meio do povo, ou na quinta a quilómetros. Desfaço os dias entre fontes de água fresca,
minas centenárias construídas por mãos sábias e ribeiras cristalinas que procuram
companhia até… ao mar!
Gosto de me sentar na escadaria da velha casa granítica de
um caseiro há muito desaparecido tendo frondosos sobreiros, oliveiras bem
tratadas, velhos carvalhos como paisagem. Ah… pois e aquele lameiro chamariz de
tanta passarada!
Os esquilos descem pelos ramos dos sobreiros até às bolotas
que descascam com agilidade e saber. Frenéticos, como sempre foi a minha vida,
apetece-me avisá-los para a serenidade dos dias. Mas também sei que não
acreditariam em mim…
Gosto de aqui estar percebendo ao longe onde antigamente
existia um pinhal os javalis em fila em busca de comida. Na charca há uns patos
que poisam devagar nas águas turvas. A passarada esvoaça, brinca, chilrea…
Na estrada atrás da casa passa um carro, interrompendo um momento
único e impagável de paz!
Aquela que diariamente procuro inundar o meu pobre espírito!
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