domingo, 2 de agosto de 2026

A minha estória de amor

Não sei que tempo verbal terei de usar para referir alguém que comemora hoje o seu aniversário e de quem não sei nada vai para mais de 40 anos. Não sei se vive ou não, se emigrou para longe ou está em Portugal, se casou ou entrou num convento.

Apenas sei que neste segundo dia de Agosto a Isabel festeja (?) o seu aniversário.

Reconheço que foi uma das minhas enormes paixões. Daquelas que mora connosco dia e noite, noite de dia. Mas, feliz ou infelizmente, nunca passou disso muito por culpa dela.

Era uma jovem quando a conheci em Cacilhas numa cervejaria que eu frequentava. A mesa onde estava era grande com muita malta e ela surgiu assim de repente à porta, carregada de livros escolares já que estudava à noite. Num salto e sem a conhecer convidei-a a sentar-se na nossa mesa.

Relutante a princípio, rapidamente se deixou enfeitiçar, não pela minha beleza obviamente, mas pela minha ousadia. Não vinha só e a sua companheira, quiçá mais afoita, não nos temeu e sentou-se a meu lado. Ela puxou de uma cadeira e sentou-se defronte de mim.

Recordo aqueles momentos. Ela era de uma beleza estonteante e eu fiquei preso naquele seu olhar sereno, no sorriso meio tímido, na gargalhada sincera, no cabelo mágico.

- Temos de ir apanhar o autocarro, se não só há muito tarde.

Num ápice olhei para um amigo e pisquei-lhe o olho numa acção concertada e ousei.

- Não te preocupes, nós levamos-te a casa!

Assim fizemos!

Durante alguns anos fomos cimentando uma amizade que deste lado tinha outro sentido e ao qual a Isabel nunca deu resposta. Nunca!

Passámos fins-de-ano e diversos carnavais nas mesmas festas, dançámos e divertimo-nos juntos. Sem um beijo, uma singela carícia.

Até que dia enterrei a paixão bem fundo e deixei que aquela se esvanecesse com o passar do tempo. Foi realmente o que aconteceu pois anos mais tarde eu casaria com a minha mulher. Ela fui uma das convidadas para a boda e esteve presente a testemunhar o fim etéreo da minha paixão por ela. De negro vestida, como se estivesse de luto duma relação que nunca existiu.

Lembro-me dela amiúde e fico sempre a pensar o que teria sido de mim se ela tivesse alinhado numa aventura a dois!

Esta foi a minha estória de amor que, ao invés do meu ex-colega, nunca se concretizou.


4 comentários:

  1. Gostei imenso caro Amigo. Essas ondas de saudosismo e cálculos também me são frequentes. Que será feito de?... O mundo nestes casos é muito grande e, para escrever, basta que a nossa imaginação seja maior.
    Parto para um desses lugares de antigamente e de sempre uns dias. Grande abraço.

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    1. Meu bom amigo João-Afonso,
      esta estória foi verdadeira e reconheço que nunca foi longe demais, como escrevi, por culpa exclusivamente dela. Era uma mulher lindíssima daquelas que nem homens nem mulheres ficam indiferentes.
      Como esta algumas outras amizades perderam-se pelos trilhos ínvios do tempo.
      Recordo-as amiúde, mas provavelmente eu mesmo já terei passado nas suas memórias para o esquecimento permanente.
      Ficam as novas amizades tão ou mais importantes neste novo ciclo das nossas vidas.
      Boa viagem, boas férias, descansa!
      Abraço de amizade.

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  2. feliz agosto, querido Amigo José
    tinha saudades de o lêr! o seu blog "José da Xã" está muito abandonado! fiquei muito feliz por o encontrar activo neste "Xão Fértil" :) a vida é feita destas histórias. com que idade está a sua neta mais velha? um abraço e até breve <3

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    1. Olá amiga Ana,
      Tenho andado muito afastado da escrita. A saúde também não ajuda e sinto-me muito sozinho.
      Obrigado por aqui vires. E vou tentar voltar à escrita.
      Bom fim de semana. Um beijo com amizade.

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