domingo, 27 de setembro de 2026

Morreu o “Jaquim das vacas”

Morreu ontem aos 97 anos o meu tio Joaquim. Este era, dos sete filhos dos meus avós, o mais parecido com o seu pai e meu avô. Talvez por nunca ter abandonado a aldeia que o viu nascer e nela ter feito a sua longuíssima vida.

Sempre atrás de uma junta de vacas castanhas que de vez em quando ia substituindo por outras mais jovens, lavrou quilómetros de chão fértil, trilhou muita palha para recolher a fava e demais cereais, colheu toneladas de azeitona, ceifou hectares de trigo, carregou nos fueiros milhares de molhos de palha e feno. E o mais curioso é que tratava os animais com alguma deferência e, quiçá, com algum carinho.

Trabalhei amiúde com ele e para ele. Do muito ou pouco que sei da agricultura foi com o meu tio Joaquim que aprendi. Dele escutei estórias fantásticas que povoaram durante décadas o meu imaginário. Também dele recebi ensinamentos que mais tarde haveria de ter em consideração na minha vida. Ele foi, para mim, sempre um excelso exemplo.

Diria que foi o homem mais conhecido da aldeia em muitos quilómetros em redor do povoado. Caçador exímio com vara, todos os amigos e conhecidos queriam acompanhá-lo nas aventuras cinegéticas. Outra característica real e comprovada, era a sua destreza e manual pontaria. Vi pegar em quatro pedras e sob um pinheiro manso atirá-las para o meio da ramagem. A verdade é que caíram quatro pinhas.

Com a idade foi perdendo, naturalmente, faculdades e passou a preferir ganhar nas cartas puídas e negras de tantas mãos. Então na “sueca” era rei, professor e todos, todos, todos queriam-no para parceiro.

No fundo “o Jaquim das vacas” como era conhecido em todo o lado foi sempre um homem bom. Um exemplo, um prodígio como pessoa e filosofia de vida.

Hoje foi o seu funeral onde estive, acompanhando o meu pai e dois dos meus tios. Um deles com 88 anos chorava e entre as lágrimas sentidas confidenciou-me em surdina: ele foi o pilar desta família.

Sem dúvida, pensei. E quando um desconhecido meu estendeu a mão a dar os “sentimentos” percebi de súbito que não era somente a família que estava de luto, mas toda a aldeia mesmo que não fossem do mesmo sangue!

Porque há homens, não obstante a idade, a estória de vida, são pela postura e carisma os verdadeiros pilares de um povo.

Será bom que a aldeia não se esqueça NUNCA deste homem! Deve-lhe, acima de tudo, sabedoria e bom senso. 

Eu jamais o farei!

Que descanse em PAZ!

2 comentários:

  1. escreves sobre ele com tanto amor, generoso Amigo. o teu tio deixou um legado de emoções. bonita homenagem <3 abraço amigo

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    1. Amiga Ana,
      foi realmente um grande homem. Marcante.
      Obrigado!

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